Cortesias

Se você gosta de livros, você provavelmente conhece o Skoob, não é mesmo?

Mas você  já participou do sorteio de cortesias que o site realiza?

Não??

Então está na hora de dar uma passadinha lá!! São muitas as opções!!

Mas, atenção!! Os resultados são apenas divulgados no Skoob ou na página do site no Facebook!! Infelizmente, eles não entram em contato com o ganhador por e-mail!!

Se interessou? Corre lá!!

Beijo,

 

Tullia Maria

por resenhasdecabeceiras

Desventuras em Série, de Lemony Snicket – por Thaina Chamelet

Você com certeza já ouviu a expressão “falar com as paredes”, essa como tantas outras expressões esquisitas que as pessoas costumam usar, sem sequer notar o significado, podem ter diversas aplicações. Por exemplo “Aquele cara de chapéu azul está falando com as paredes” pode querer dizer que o cara é maluco por usar um chapéu de uma cor tão berrante e estar falando com objetos inanimados. “Aquele cara de casaco preto esta falando com as paredes” pode significar que alguém com um comportamento suspeito está tentando se comunicar com outra pessoa sem chamar atenção de ninguém. Mas normalmente se emprega quando dizemos que algum esforço é inútil, que dizer algo à uma parede ou a um determinado ser humano não faz a menor diferença.
Quando você pegar esse livro, inocentemente em uma prateleira de uma biblioteca ou livraria qualquer e, apesar de ser um livro infantil, se interessar pela ilustração de traços sutis e temas exóticos e um tanto sinistros das capas e ler a pequena observação do fundo, vai entender essa estranha expressão: “É meu triste dever pôr no papel essas histórias lamentáveis. Mas não há nada que o impeça de largar o livro imediatamente e sair para outra leitura sobre coisas alegres, se isso que você prefere.” (Mau começo – livro
1) Trata-se da história de três jovens órfãos que perdem os eixos do mundo com a partida dos pais, passando de lugar em lugar, tutor em tutor, sem encontrar respostas, para as perguntas que vão se avolumando a cada passo, e nem um lar confiável. Sua narração é feita por um pseudônimo de Daniel Handler, Lemony Snicket, que é “participa” dos fatos de um jeito peculiar, sendo um narrador-personagem mesmo sem aparecer claramente em nenhum dos livros O livro é cheio de características inovadoras e algumas coisas sobre essa coleção de livros que me deixam fascinada seguem listadinhas abaixo:
A primeira delas é o fato da trama tão bem costurada e confusa, que vai se desenrolando e enrolando o leitor a cada linha, mesmo sendo um livro juvenil, sua construção exige leitores atentos e bem dispostos.
A segunda é o jeito como ele é escrito, nos parágrafos acima dei alguns exemplos, você nem deve ter notado um deles, a interatividade com o leitor, os diversos avisos para que o leitor largue o livro e que só fazem aumentar o interesse pelo mesmo, o uso de expressões do dia-a-dia como introdução de cada livro ou dos capítulos destes e os mistérios e rastros que recheiam as páginas.
A terceira é o fato de que, a maioria dos leitores, diria ate que todos se generalizar não fosse algo impossível em todos os casos, continuam a leitura dos treze livros não pela história principal do autor, mas sim pela história do autor, que caminha paralela e muito mais misteriosa.
A quarta é a construção dos personagens, todos tem algo peculiar tanto psicologicamente quanto fisicamente, mesmo que sejam quase que incontáveis.
A quinta são os momentos em que nada faz sentido, páginas completamente pretas, páginas repetidas, capítulos que não são capítulos, frases que aparentemente não tem sentido nenhum sem contexto e que acabam sendo dicas de outros enredos, distorções em histórias folclóricas, citações, situações inimagináveis, açucareiros e coisas que não são explicadas em momento nenhum!
São tantos os mistérios e duvidas que existem diversos fóruns na internet discutindo cada detalhe insano da coleção, onde são criadas diversas teorias malucas e ninguém chega a nenhuma conclusão, na verdade. Podem procurar, é facinho de encontrar e só aumentam a curiosidade. É uma série realmente incrível, diferente das coisas que vem sendo publicadas, fugindo completamente aos padrões em gênero, estilo de escrita e tema , e desafiando a imaginação de crianças e adultos.

Coleção: Desventuras em série Autor: Lemony Snicket Editora: Cia. Das Letras Ano: 1999

Meu email é naitha_pops@hotmail.com e adoraria receber a sua opinião, critica, comentário, sugestão e também os elogios se quiserem! Até o próximo domingo!

por resenhasdecabeceiras

Texto do Dia – por Tullia Maria

Autora e Leitora

12 de janeiro. Uma única data e duas vidas marcadas. A minha, por ser o dia do meu nascimento. A sua, porque nesse dia você se despediu do mundo. Quando eu poderia imaginar que, anos depois, nos reencontraríamos? Não pessoalmente, é claro! Mas através do que você deixou escrito e eu adoro ler. Quantas e quantas vezes eu me vi abrindo mão de muitas coisas que tinha para fazer (“deixando para amanhã o que podia fazer hoje”) só para ver como você ia solucionar aquele mistério!? Quantas e quantas vezes eu falei de você, da forma como criava o enredo, de como suas personagens eram bem construídas, com aquele brilho no olhar?! E como eu falava bem daquele detetive amigo nosso que, apesar da inteligência invejável, é um grande convencido…

Sua vida eu sempre achei muito estranha: Cheia de controvérsias e mistérios que dão a impressão de que a vida imita a arte mesmo! E há aqueles momentos que até hoje não foram desvendados, passagens que só você mesma para explicar, em meio a uma boa conversa, em um legítimo chá da tarde britânico! Uma situação agora impossível…

Eu não posso dizer que você é minha autora favorita, porque eu não tenho nenhuma eleita. Mas eu posso afirmar, com toda a certeza, que você marcou a minha vida! E vai continuar nela, se fazendo mais presente a cada vez que eu abrir um livro seu… Em qualquer dia, ou num 12 de janeiro!

Tullia Maria

por resenhasdecabeceiras

Resenha – Os Crimes ABC, Agatha Christie

Oi, gente!!

A resenha de hoje é sobre a obra de uma de minhas autoras favoritas, a Agatha Christie!! O texto foi originalmente publicado por mim no blog Doce Encanto e vocês vão poder conferí-lo abaixo!!

Espero que gostem!!

Beijo,

Tullia Maria

“(…) o elemento humano nunca pode ser ignorado.”
O que a dona de uma tabacaria, uma jovem garçonete e um fazendeiro que moram em diferentes cidades podem ter em comum? Por muito tempo, absolutamente nada. Entretanto quando um perigoso assassino começa agir, a Sra. Ascher, Betty Barnard e Sir Carmichael Clarke se tornam algumas das vítimas dos crimes ABC.
Assim como já é prenunciado pelo título, a obra retrata a ação de um serial killer que escolhe seus alvos de uma maneira bem peculiar: a partir da inicial do sobrenome. Além de matar as pessoas em ordem alfabética, esse meticuloso criminoso ainda se preocupa com mais um detalhe: o nome da cidade onde deve ocorrer o crime deve começar com a mesma letra da inicial do assassinado. Uma mente muito perspicaz, não?
Porém, os diferenciais dessa narrativa não param por aí. Dessa vez, o criminoso não tem medo de ser encontrado, na verdade, é ele mesmo que envolve Hercule Poirot na trama. O nosso astuto detetive recebe cartas, assassinadas com as iniciais A.B.C., onde estão indicados os dias e locais do assassinato. E para provar que ele foi realizado, o assassino deixa, junto aos corpos, um guia de viagem ABC¹.
Nesse policial, onde a mente do leitor é testada mais uma vez, Poirot se depara com um dos seus maiores desafios: encontrar um delinquente que, apesar de não se preocupar em ocultar seus feitos, consegue realizá-los sem deixar grandes pistas. E, ainda mais, encontrar um motivo para tantas mortes. Afinal, um pouco de psicologia pode ajudar muito na solução desse mistério.
A narração, feita em parte pelo Capitão Hastings (grande amigo de Poirot), em parte em terceira pessoa, permite ao leitor receber informações inicialmente desconhecidas das próprias personagens. Contudo, é preciso utilizá-las corretamente, ou elas podem se transformar em mais uma armadilha.
Assim como em muitas de suas obras, Agatha faz referências a alguns autores e outros livros seus. Em Os Crimes ABC os escolhidos são Sherlock Holmes, a quem ela critica, e Cartas na Mesa, livro dela publicado no mesmo ano, cujo enredo é descrito quando Poirot fala sobre o que seria um caso interessante. Portanto, os leitores da Dama do Crime terão mais um motivo para se deliciar enquanto lêem a trama, relembrando alguns crimes memoráveis.
Pouco a pouco, Agatha consegue nos envolver nessa narrativa e desperta em nós uma necessidade de ajudar a encontrar o criminoso, para impedir que ele continue agindo. Entretanto é preciso tomar cuidado, pois a Dama do Crime está mais uma vez pronta para enganar. Somos levados a acreditar que a solução do mistério é bem simples e, inclusive, o leitor pode ficar apreensivo com a demora de Poirot em encontrar uma resposta. Mas é preciso lembrar que as famosas “células cinzentas” do nada modesto detetive surpreendem.
Um aspecto muito importante na obra é a capacidade de prestidigitação² da autora. Da maneira como ela escreve, somos induzidos a chegar às conclusões que ela deseja. Entretanto, após o espantoso final, se o leitor reler alguns trechos, vai perceber que, na verdade, Agatha não escreveu nada que comprometesse ou apontasse o suposto criminoso. Provavelmente, os que já estão acostumados com os livros dela logo perceberão que a solução não pode ser tão óbvia, mas nada, além da intuição, pode ajudar na descoberta do verdadeiro assassino.
Para quem gosta de policiais intrigantes, essa é uma ótima dica. A leitura é bem rápida, mas o livro demora um pouco a pegar ritmo. Entretanto, a curiosidade por descobrir o criminoso e seus motivos supera qualquer coisa e faz com que a leitura continue fluindo. Se prepare, pois você provavelmente será surpreendido por uma das melhores obras da Rainha do Crime!!
por resenhasdecabeceiras

Especial: salas de leitura

Olá, pessoal!!

Tudo bem?

Quantos de nós já não desejaram ter uma sala de leitura, esse cantinho especial, no qual nos dedicamos a um dos nossos maiores prazeres? Pois, navegando pela net, encontrei algumas salas lindas! Vamos conferir?

Beijo,

Tullia Maria

por resenhasdecabeceiras

Grifando por aí…

Lar

“E pela primeira vez desde que cheguei em casa, estou completamente feliz. É estranho. Casa. Como eu pude querer estar aqui por tanto tempo, só para perceber que ela se foi. Estar aqui, tecnicamente minha casa, e descobrir que minha casa agora é em outro lugar? É possível que lar seja uma pessoa e não um lugar? Bridge costumava ser meu lar. Talvez St. Clair seja meu novo lar.”

Stephanie Perkins – Anna e o Beijo Francês

por resenhasdecabeceiras

Não Me Julgue – por Rosana Alves Oliveira

Não me julgue.

Não estou sempre errada, por vezes ouso acertar. Encontro milhares de dedos a apontar-me no erro, mas nenhum “muito bem” nos acertos… Mas de que vale isso mesmo? Não sou mais uma menina e não necessito de aprovação constante.

Não sou perfeita, mas parece que alguns ao meu redor cobram isso de mim. Eu também tenho medos, solidões, eu também me perco.

Não tenho pretensões em agradar a todos (me desculpe os que o fazem, mas minha auto-estima é essencial), no entanto aos que me interessam: é duro lidar com pessoas implacáveis. Eu sei por que já fui uma delas e feri muitos que me amavam.

Posso ter todos os defeitos possíveis, mas não ousaria dizer o que não sinto, fazer o que não quero.

Porque não aceitar-me assim?

Por que não amar-me como sou?

Quero brincar de ter vontades, quero ter vontade de brincar, e poder sem julgamento realizá-las.

Por vezes os gritos aqui dentro se calam, se intimidam diante de olhares fechados, punitivos, ameaçadores.

Quero a liberdade de sentimentos sejam eles bons ou ruins, façam-me bem ou mal quero vivê-los a meu jeito, da forma disforme ou conforme as necessidades do meu coração.

Não julgue o que não vês, conheces pouco de mim, se permita ver meus mais belos sorrisos, minhas lágrimas mais doídas, as palavras que inconfessavelmente tenho a lhe pronunciar.

Não cesse meu livre arbítrio, reconheça os encantos de um pássaro que mesmo tendo toda liberdade para voar prefere pousar do seu lado.

Deixa que eu enlouqueça, mas reconheça que minha imperfeição te satisfaz.

Como diz o trecho da música de Luciana Mello:

“Hoje eu só quero que o dia termine bem”… mas se não é para ser, tudo bem! Amanhã eu volto a tentar.

“É com os pés seguros no chão que você pode alçar os maiores vôos”

por resenhasdecabeceiras

Chamas – por Thaina Chamelet

Ele abriu a caixa, olhou por alguns segundos e depois a virou sobre as chamas a nossa frente.

Fiquei olhando pra ele, mas ele encarava as chamas com os olhos rasos, parecia que iria chorar a qualquer momento ou se lançar ao fogo para retomar o que acabara de jogar.

Congelei por alguns segundos, sentada no gramado ao lado da casa que um dia fora de meus pais e que agora me abrigava meio precariamente.
Fiquei com meu bolo de papeis na mão, esperando que algo acontecesse.
Levantei-me e fui a ele, toquei seu braço e lhe estendi as cartas.
Ele me olhou confuso.
– Quero que meu passado queime junto com o seu de uma vez.
– Então, as jogue.
– Não consigo…
– Por quê?
– É mais forte do que eu.
Ele voltou a olhar o fogo
– Você não precisa fazer isso se não quiser…
– Faça, por favor, nada mais justo que meu futuro queimar meu passado.
Ele não tomou as cartas de minha mão, apenas me beijou do modo mais suave que podia, foram segundos que pareciam minha eternidade.
Sentia o calor das labaredas baixas ao meu lado e o calor dos braços em meu corpo, ele recostou a testa na minha, respirávamos juntos, meu coração havia acelerado e podia jurar que o dele agora batida no mesmo compasso do meu, como se as chamas deixassem meu corpo todo em brasa.
Meus dedos foram soltando o papel ate que quando minhas mãos foram a sua nuca, estavam leves, sem nenhuma lembrança entre os dedos, eles agora se entrelaçavam no cabelo dele.
As labaredas iam consumindo os papéis, as palavras gastas, os perfumes impressos e o cheiro da fumaça ia liberando uma estranha liberdade, cheiro de esperança.
E ficamos ali nos deliciando de nós, admirando tudo queimar, deixando as lembranças ficarem como o passado, queimadas, feias e sem um modo de retorno. Estava na hora de viver de novo, de ser o presente, de fazer o futuro.
O fogo continuou crepitando e fomos abraçados para dentro de casa, naquela noite quente de verão.
por resenhasdecabeceiras

Texto do Dia

Oi, gente!!

Tudo bem??

Infelizmente, não pude postar a resenha de ontem, porque tive problemas com a Internet! Pois é… Mas como não teve jeito, prometo que a da semana que vem vai ser caprichada…

Mas e o “Texto do Dia”?

Hoje eu trago um conto de um amigo meu, o Pedro Almada, do blog Inspirados!!

Espero que gostem!!

Grande beijo,

Tullia Maria

Braços de Vênus

 

O cheiro do cigarro era bom, um doce calmante em forma de fumaça, embora a nicotina em nada excitasse meu paladar. Com tantos tragos, valia a pena o gosto pelo aroma.

Fiquei, durante horas, debruçado sobre a mesa do bar, aonde o vai-vem era constante, desde moleques esfarrapados até boêmios amargurados. O sol já se despedia, presenteando-nos com os seus últimos raios de ouro vespertino, tão logo daria espaço ao pratear da lua cheia.  

Não mais do que dez metros a minha frente, o trilho da ferrovia passava em paralelo com a calçada de embarque (“Ande pelo passeio, menino”, era o que mamãe sempre dizia antes de atarracar as mãos em minhas orelhas e me frear feito bicho domado). Toda a sorte de pessoas perambulava pela plataforma, atentos ao relógio, amaldiçoando o maquinista atrasado, ou simplesmente mastigando, contentes, os vestígios de coco que prendiam nos dentes, “Pegada que toda cocada bem feita deixa na boca por horas”, mamãe costumava dizer, antes de pregar a barriga saliente no tacho.

Em meninice, eu conhecia todos os vagões, sabia, de cor, o nome do cabo Genório, vigilante na plataforma, e o Sr. Prado, o homem encarregado de checar os bilhetes dos passageiros. Nunca fui dado ao trabalho, portanto não me apetece conhecer o termo dessa profissão. Sabia, também, as cidades conectadas à linha ferroviária. Sabia, até, o nome da preta gorda que empurrava o carrinho pelos corredores dos vagões. Dona Hortênsia, lindo nome, lindo sorriso. Sempre que me avistava, tratava logo de me tomar em suas mãos pesadas, apertava-me em suas mamas fartas e me oferecia um doce, à minha escolha. “É doce que acalma criança encapetada, Dona Hortênsia. Só doce mesmo…”, dizia mamãe, já cansada de ralhar comigo e minhas idéias peraltas. Eu comia o doce, quieto em meu assento, enquanto assistia ao rebolar da fumaça que saltava da chaminé do trem e tomava o céu azul. 

Dei outra tragada em meu cigarro, arrebatando minhas lembranças e voltando minha atenção ao movimento da plataforma. Uma senhora, já decrépita, mancava até o assento, puxando, aos solavancos, uma mala grande demais para o seu porte físico. Um homem, servido de um saco de pipocas, caminhava à beira da calçada, ignorando a senhora necessitada de um braço solidário. O trem se aproximava, surgindo no horizonte, cuspindo fumaças repolhudas acima dos vagões. 

A terceira tragada me deixou sonolento. Foi em uma das minhas piscadas, dessas de quem pede arrego ao travesseiro, que avistei o intento do meu dia. Valeram-me os tragos e o tempo desocupado.

Uma silhueta feminina, bem desenhada por um vestido rosa longo, caminhava, entre a multidão, com duas pequenas bagagens aos flancos. Um enorme chapéu bege com plumas brancas cobria o rosto da mulher. As únicas peles visíveis eram os seus braços nus, salvo a pequena fração de canelas que ficavam à vista.

Que braços, valha-me! Desapossei-me do cigarro sem cerimônia, contemplando a figura de mãos perfeitas que dançavam no ar com maestria. Dedos finos, de unhas impecáveis de um tom carmesim pouco convencional. Pele alva, ao ponto de revelar linhas arroxeadas de veia até o bíceps, que estufava discretamente ante o esforço de se carregar as bagagens. Seu rosto ainda me era um enigma.

Braços sinuosos eram aqueles, delgados, que serpenteavam, acompanhando o movimento dos quadris pouco chamativos, se comparado à beleza daqueles… Braços esguios, coisa de arte européia!

Só podia! Se havia outra explicação, eu não queria saber. Mas me era certo, eram os braços achados de Vênus! Estavam ali, brincando serelepes em meio aos

mortais incapazes de ver a escultura transformada em carne. Se foi Alexandros, ele que descansasse sossegado, os braços não estavam em outro lugar, senão perambulando pelas ruas de Minas, longe dos critiques d’art. 

“Filho, se a mulher escolhida não puder comovê-lo com um abraço, não haverá sabor algum em seus lábios. Direi, então, que escolheu mal”, foi o que mamãe disse antes de me atirar aos prazeres da Província. Ora, se aqueles braços não me pudessem comover, de nada me serviria o mais adocicado beijo. 

Jose de Alencar que ficasse com os seus pés mimosos de Amélia! Que me vale uma gazela se não puder possuir, nos meus, os braços da própria deusa do amor? Tratei logo de me levantar, decidido em trocar com Vênus uma ou duas palavras, um flerte e, quem sabe, um sorvete de morango. Dei-me a liberdade de fantasiar um futuro entre nós, já casados, com filhos de iguais braços divinos e uma bela casa ao monte Olimpo. 

Estava já adiantado em meus passos, ansioso por ver a dona dos braços esguios, quando o medo me assolou o desejo. Hesitei, olhando com dúvida o gigantesco chapéu com plumas. E se, ao olhar-lhe a face, eu descobrisse, não a doçura da almejada Vênus, mas uma medusa de lábios murchos e dentes amotinados, com olhos tortos cor de argila, capazes de petrificar o coração de um homem cheio de esperanças em um amor provinciano? Seria esse o aleijão a habitar as páginas do meu trágico romance? Se fosse ela assim, tão feia, varreria todo o encanto, lançado junto ao pó cinza de limalha da ferrovia.

“Filho meu, o amor não é a cor dos olhos tampouco o tom da pele. É sequer a maçã do rosto bem feita… Por mais bela que possa parecer, se não for doce, a maçã só é boa de vista”, era o que dizia mamãe, me instruindo para amar bem amado, sem desejar a beleza, se não a interior. 

Pensei duas vezes, ou um quarto de vez. Lancei as costas à mulher, desistindo de meu intento, apregoando o perdão à memória de minha mãe. Ela que me perdoasse, pois eu não iria me arriscar e desmanchar os belos braços em provável rosto de carranca. Se beleza não lhe era superestimado, faça bem. Mas esse não era o tipo de princípio que se passava por genética. A mim a beleza importava, deveras!

Sentei-me novamente na cadeira do bar, enquanto meus olhos sorviam o último vislumbre dos braços mimosos, a sumir no vagão, em meio à massa de passageiros. Acendi um cigarro, traguei uma vez mais, sentindo o doce calmante invadir minhas narinas. 

É sim, dona Hortênsia. Só doce mesmo… 

por resenhasdecabeceiras

Grifando por aí…

Olá, pessoal!!

Como estão todos?? Espero que bem…

Hoje o blog inaugura a “Grifando por aí”, dedicada a  trechos de livros, que vai passar a ir ao ar toda quarta-feira!! E se vocês quiserem colaborar com essa coluna, sintam-se à vontade!! É só enviar a sua passagem favorita pela página do blog no Facebook!!

E então? Vamos ao trecho de hoje?

Espero que gostem….

Beijão,

Tullia Maria

Resgate

Se você ama ler e ama ter seus livros por perto, pergunto:
não fica morrendo de ciúmes quando um amigo pede emprestado um exemplar que você adora, que está todo sublinhado, que virou uma espécie de bíblia íntima?
Negar o empréstimo é complicado.
Então você diz sim, seu amigo leva o livro e a graça de viver acaba.
 Puxa, um livro não sabe se cuidar sozinho.
Vai ficar lá, jogado numa casa estranha, será folheado com desprezo.
Seu amigo poderá deixar pingar café nas páginas.
E ele vai espiar tudo que você sublinhou e tirar conclusões precipitadas.
O livro será devolvido?
Mistério.
Você costuma ler um livro em uma semana no máximo, e ele levará certamente um semestre.
Um semestre!
É uma eternidade longe do seu amor.
Seu livro não pode telefonar pra você, não pode pedir pra voltar, ficará criando pó em estantes desconhecidas, esquecido, humilhado.
Eu só empresto livros para quem tenho certeza de que os ama tanto quando eu, e quando sei que serão lidos num prazo razoável.
Se não há intenção de me devolver logo, que estabeleçam um resgate:
eu pago.”

Martha Medeiros – Montanha-Russa.
por resenhasdecabeceiras