Texto do Dia

Oi, gente!!

Tudo bem??

Infelizmente, não pude postar a resenha de ontem, porque tive problemas com a Internet! Pois é… Mas como não teve jeito, prometo que a da semana que vem vai ser caprichada…

Mas e o “Texto do Dia”?

Hoje eu trago um conto de um amigo meu, o Pedro Almada, do blog Inspirados!!

Espero que gostem!!

Grande beijo,

Tullia Maria

Braços de Vênus

 

O cheiro do cigarro era bom, um doce calmante em forma de fumaça, embora a nicotina em nada excitasse meu paladar. Com tantos tragos, valia a pena o gosto pelo aroma.

Fiquei, durante horas, debruçado sobre a mesa do bar, aonde o vai-vem era constante, desde moleques esfarrapados até boêmios amargurados. O sol já se despedia, presenteando-nos com os seus últimos raios de ouro vespertino, tão logo daria espaço ao pratear da lua cheia.  

Não mais do que dez metros a minha frente, o trilho da ferrovia passava em paralelo com a calçada de embarque (“Ande pelo passeio, menino”, era o que mamãe sempre dizia antes de atarracar as mãos em minhas orelhas e me frear feito bicho domado). Toda a sorte de pessoas perambulava pela plataforma, atentos ao relógio, amaldiçoando o maquinista atrasado, ou simplesmente mastigando, contentes, os vestígios de coco que prendiam nos dentes, “Pegada que toda cocada bem feita deixa na boca por horas”, mamãe costumava dizer, antes de pregar a barriga saliente no tacho.

Em meninice, eu conhecia todos os vagões, sabia, de cor, o nome do cabo Genório, vigilante na plataforma, e o Sr. Prado, o homem encarregado de checar os bilhetes dos passageiros. Nunca fui dado ao trabalho, portanto não me apetece conhecer o termo dessa profissão. Sabia, também, as cidades conectadas à linha ferroviária. Sabia, até, o nome da preta gorda que empurrava o carrinho pelos corredores dos vagões. Dona Hortênsia, lindo nome, lindo sorriso. Sempre que me avistava, tratava logo de me tomar em suas mãos pesadas, apertava-me em suas mamas fartas e me oferecia um doce, à minha escolha. “É doce que acalma criança encapetada, Dona Hortênsia. Só doce mesmo…”, dizia mamãe, já cansada de ralhar comigo e minhas idéias peraltas. Eu comia o doce, quieto em meu assento, enquanto assistia ao rebolar da fumaça que saltava da chaminé do trem e tomava o céu azul. 

Dei outra tragada em meu cigarro, arrebatando minhas lembranças e voltando minha atenção ao movimento da plataforma. Uma senhora, já decrépita, mancava até o assento, puxando, aos solavancos, uma mala grande demais para o seu porte físico. Um homem, servido de um saco de pipocas, caminhava à beira da calçada, ignorando a senhora necessitada de um braço solidário. O trem se aproximava, surgindo no horizonte, cuspindo fumaças repolhudas acima dos vagões. 

A terceira tragada me deixou sonolento. Foi em uma das minhas piscadas, dessas de quem pede arrego ao travesseiro, que avistei o intento do meu dia. Valeram-me os tragos e o tempo desocupado.

Uma silhueta feminina, bem desenhada por um vestido rosa longo, caminhava, entre a multidão, com duas pequenas bagagens aos flancos. Um enorme chapéu bege com plumas brancas cobria o rosto da mulher. As únicas peles visíveis eram os seus braços nus, salvo a pequena fração de canelas que ficavam à vista.

Que braços, valha-me! Desapossei-me do cigarro sem cerimônia, contemplando a figura de mãos perfeitas que dançavam no ar com maestria. Dedos finos, de unhas impecáveis de um tom carmesim pouco convencional. Pele alva, ao ponto de revelar linhas arroxeadas de veia até o bíceps, que estufava discretamente ante o esforço de se carregar as bagagens. Seu rosto ainda me era um enigma.

Braços sinuosos eram aqueles, delgados, que serpenteavam, acompanhando o movimento dos quadris pouco chamativos, se comparado à beleza daqueles… Braços esguios, coisa de arte européia!

Só podia! Se havia outra explicação, eu não queria saber. Mas me era certo, eram os braços achados de Vênus! Estavam ali, brincando serelepes em meio aos

mortais incapazes de ver a escultura transformada em carne. Se foi Alexandros, ele que descansasse sossegado, os braços não estavam em outro lugar, senão perambulando pelas ruas de Minas, longe dos critiques d’art. 

“Filho, se a mulher escolhida não puder comovê-lo com um abraço, não haverá sabor algum em seus lábios. Direi, então, que escolheu mal”, foi o que mamãe disse antes de me atirar aos prazeres da Província. Ora, se aqueles braços não me pudessem comover, de nada me serviria o mais adocicado beijo. 

Jose de Alencar que ficasse com os seus pés mimosos de Amélia! Que me vale uma gazela se não puder possuir, nos meus, os braços da própria deusa do amor? Tratei logo de me levantar, decidido em trocar com Vênus uma ou duas palavras, um flerte e, quem sabe, um sorvete de morango. Dei-me a liberdade de fantasiar um futuro entre nós, já casados, com filhos de iguais braços divinos e uma bela casa ao monte Olimpo. 

Estava já adiantado em meus passos, ansioso por ver a dona dos braços esguios, quando o medo me assolou o desejo. Hesitei, olhando com dúvida o gigantesco chapéu com plumas. E se, ao olhar-lhe a face, eu descobrisse, não a doçura da almejada Vênus, mas uma medusa de lábios murchos e dentes amotinados, com olhos tortos cor de argila, capazes de petrificar o coração de um homem cheio de esperanças em um amor provinciano? Seria esse o aleijão a habitar as páginas do meu trágico romance? Se fosse ela assim, tão feia, varreria todo o encanto, lançado junto ao pó cinza de limalha da ferrovia.

“Filho meu, o amor não é a cor dos olhos tampouco o tom da pele. É sequer a maçã do rosto bem feita… Por mais bela que possa parecer, se não for doce, a maçã só é boa de vista”, era o que dizia mamãe, me instruindo para amar bem amado, sem desejar a beleza, se não a interior. 

Pensei duas vezes, ou um quarto de vez. Lancei as costas à mulher, desistindo de meu intento, apregoando o perdão à memória de minha mãe. Ela que me perdoasse, pois eu não iria me arriscar e desmanchar os belos braços em provável rosto de carranca. Se beleza não lhe era superestimado, faça bem. Mas esse não era o tipo de princípio que se passava por genética. A mim a beleza importava, deveras!

Sentei-me novamente na cadeira do bar, enquanto meus olhos sorviam o último vislumbre dos braços mimosos, a sumir no vagão, em meio à massa de passageiros. Acendi um cigarro, traguei uma vez mais, sentindo o doce calmante invadir minhas narinas. 

É sim, dona Hortênsia. Só doce mesmo… 

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por resenhasdecabeceiras

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