A Orquestra – Carol Estrella

Quando escrevo sinto as palavras se organizarem no papel como uma sinfonia.

O ruído ensurdecedor do texto agoniado e desesperado para sair enlouquece meus pensamentos e invade meu dia a dia, me deixando louca. Mas, nada como uma boa melodia para organizar tudo e obrigar a concentração a tecer as ideias que compõem a minha vida.

Dou uma chicotada nas palavras mais rebeldes que tentam sair sem autorização. Estas são as piores.  Elas acham que podem tudo e explodem como pipoca na hora que bem entendem dentro da minha cabeça.

É só eu entrar para o banho que a aventura começa…

As fadas invadem meus olhos e mostram todo o segredo de seu mundo guardado entre as profundezas de meu cérebro. Deste jeito, insistem em sair justamente quando estou atolada fazendo depilação em minhas pernas.

Os bruxos enfeitiçam meus cabelos e me deixam toda encaracolada entre o shampoo e o condicionador. Só me libertam da travessura quando prometo escrever sobre suas maldades com as pobres princesas.

As princesas -ah, estas são as piores- choram em meus ouvidos formando um zumbido tão ensurdecedor que nem com muito cotonete consigo me livrar de suas histórias. É toda hora me pedindo um príncipe charmoso para casar. Já disse que no banho não tem príncipe, mas elas confundem a minha mente e criam um conto especial que se desfaz assim que ponho os pés no tapete.

Os animais são os mais mansinhos. Eles me ajudam a esfregar as costas com provérbios e versos e escrevem suas ideias no vidro do Box, mas a malvada água sempre dá um jeito de afogar todas as palavras.

O pior é quando sigo o conselho da Dona Mente e sento para escrever. Parece que todas as histórias, contos e crônicas tiram férias permanentes ou então se escondem nas barras da saia da senhora sombrancelha. Quando isso acontece tenho que tirar um pensamento por vez através de minha pinça. Modelo as ideias, podo as tramas e sorteio o enredo da vez.

A euforia toma conta do meu corpo, os neurônios começam a se atiçar, as primeiras frases saem de supetão e escorregam para o chão sem nem me dar a chance de colá-las no papel.

-Quanta injustiça com a escritora!Por que brincar de pique- esconde bem na hora do dever de casa?

É um corre – corre danado. Eu encontro o travessão, mas ele gruda nas aspas e sai voando sem dar nenhuma satisfação. Recorro à vírgula, mas ela é tão gulosa que corre para cozinha e se tranca na geladeira torcendo para o ponto final não dedurar o seu esconderijo.

Se vocês pensam que isso é o fim, estão enganados. Esperem para ver as traquinagens que as orações cometem. Elas dão as mãos as subordinadas, as adjetivas, as explicativas e saem por ai rebolando na minha frente e desdenhando da minha falta de memória.

Não agüento mais tanta maldade e desprezo. Mesmo com todos esses problemas, tenho que lidar com a dor de cotovelo do lápis que foi traído pela serelepe da borrachinha que resolveu dar uns beijinhos no apontador.

Tem borrachas que não aprendem! Os lápis são muito pamonhas! Fica fácil enganá-los sem que ninguém saiba, mas não, elas querem deixar vestígios das aventuras amorosas por toda mesa. É látex que não acaba mais…

No final sobra para quem? A escritora que coloca o lápis no divã e promete arrumar uma namorada fiel. Mas, quem? Todo o meu estojo é safado.

A lapiseira já namorou o grafite 0,5, o grafite 0,7 e o 0,9 umas 100 vezes. Isso sem contar com a régua que andou se enroscando nos cabelos da minha caneta de pompom.

O liquidpaper é o mais garanhão. Toda manhã eu vejo suas artes e paqueras manchadas por um branco inconfundível. Até meus dedos sofrem assédio do liquidpaper.

Sinceramente, depois de tanta confusão para escrever um livro, desisti de lutar contra as armadilhas que esses danadinhos me pregaram.

– Quer saber, vão todos cantar em outra freguesia!

Ana Maria Machado está prontinha esperando vocês e Lygia Bojunga está morrendo de saudades.

– Então, faz favor, vão embora e me deixem em paz!

O mais engraçado é que sempre quando dou uma bronca daquelas, todos se acalmam e pacientemente me ajudam a compor mais uma bela sinfonia das letras.

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por resenhasdecabeceiras

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